Monday, December 4, 2023

Com amigos, colegas e vizinhos.

 

A família, por bem ou por mal, é obrigada, até certo ponto, a lhe engolir. Amigos aguentam esquisitices de amigos, afinal ninguém é perfeito e vizinhos obedecem aquela regra, querendo ou não: OS INCOMODADOS QUE SE RETIREM, mesmo que a lei jurídica diga que não, que o direito à propriedade é assegurado, que é proibido o som alto, após as 22 horas. As leis sociais são mais sutis, mais práticas e a vizinhança se encarrega de deixar claro que sua vida será pior que a deles, se houver uma discordância.

Colegas e conhecidos não irão dar um desconto para você. Explico: antigamente, até a época dos seus avós, você podia ser doente mental, esquisito, excêntrico, estrangeiro ( que era como que excêntrico), ou apenas um chato ( que na época era palavrão, então eles diziam sacripanta, que nos parece horroroso), que estaria tudo bem, desde que você não demonstrasse o que era e seguisse as regras de comer a mesa, de higiene, de etiqueta, etc. Atualmente existem essas regras, mas muitas exceções. A bem da verdade, ninguém sabe o que é normal, só dá para dizer o que é inaceitável, como maus tratos, violência, assassinato. Mesmo havendo essa “permissão” tácita para sermos mais verdadeiros quanto à nossa natureza, as pessoas afastam-se mais uma das outras ao menor sinal de estranheza. A diferença é que as regras sociais de comportamento faziam com que as esquisitices demorassem a ser notadas ou fossem bem escondidas, mas hoje são vistas com mais rapidez e prontamente afastadas.

Quais são as dificuldades? Acho que você já tem uma boa idéia do inferno que pode ser. Talvez já tenha sido excluído na escola, ou se afastou por conta própria a bem geral da nação. Já deve ter desistido de explicar, pois “se nem na família foi fácil, o que vão fazer comigo lá fora”? Posso contar o que passei, o que vi outros passarem, o que fiz e vi outros fazerem a respeito.

Se dentro de casa conseguia sobreviver, fora dela dava mais trabalho. Na escola não eram cinco familiares e cem “gentes mortas”, eram dois mil estudantes e quinze mil “gentes mortas” - estou fazendo um calculo otimista. Quando estudava em um colégio pequeno, levei um ano, mas me virei. Na escola maior não consegui me adaptar a imensa quantidade de energias que havia. Nem na faculdade pude melhorar essa questão, pois na minha época as drogas ficavam fora. Elas estavam nas ruas e hoje estão nas escolas, nas faculdades e estão em todo lugar. Na hora em que poderia enfrentar a situação com mais conhecimento, as drogas e o sexo já faziam a faculdade ter uma nuvem espessa como uma sopa grossa. Não que sexo seja ruim, mas o sexo desenfreado, sem cuidado, sexo como afirmação pessoal, provoca uma energia cinza que envolve as pessoas que o fazem. A nuvem envolvia o departamento todo, então percebi que ali o sexo saudável era exceção à regra entre os alunos. Quando drogas e tráfico seguem perto é triste. Pode haver o uso das drogas em outro local, longe de onde foi comprada, mas há também o uso junto de onde está sendo vendida e a faculdade hoje é assim.

Ainda sem conhecimento suficiente e na ausência de ajuda fechei-me como uma concha. Desenvolvi um sistema de defesa do tipo couraça, como é chamada, que me protegia do que vinha de fora, mas que não deixava minhas energias circularem de forma natural, fazendo a vida escolar ser um peso imenso. É uma pena ver que houve tanto estrago por algo que era fácil de ser resolvido. Começando com uma boa conversa na família. Meu avô deu um conselho que foi o máximo de conversação sobre o assunto: que não ficássemos eu e meus irmãos na rua, a vista das pessoas, por muito tempo, pois “atraíamos muito olho gordo”.

Na casa de amigos (milagrosamente os tive) enxergava o mesmo que na minha, mas não faziam parte da rotina que estava acostumada e isso me causava a perda de muito plasma tentando me defender deles. Tive muitos problemas de saúde por causa do meu sistema imunológico que trabalhou por três esse tempo todo. Hoje reconheço que o trabalho dos que me protegem não foi fácil. São heróis, estes que vigiam as crianças com mediunidade. Agradeço a todos vocês por tudo que fizeram e não vi, mas vivi para contar.

Uma vez fui à praia com amigos e seus pais. Vi o anjo da morte na rua, mas como falar para eles que a morte rondava? O vizinho morreu subitamente, e os filhos dele não puderam brincar conosco. O que teria ajudado? Em outro caso, salvei uma menina de três anos do afogamento, quando eu contava com apenas sete, na fazenda de seu avô. Lá vi uma pessoa que havia se afogado naquela piscina um tempo antes, que me contaram ser o tio da menina. Ele estava desesperado e foi quem me pediu para salvá-la, embora ele tentasse afogar outros da família por ódio. Meu corpo era muito pequeno para conseguir tirar quem quer que fosse de uma piscina cuja profundidade era maior do que meus pés alcançavam. Com a ajuda das entidades consegui resgatá-la. Fiquei o resto da semana processando o choque e a sensação ruim da morte rondando a piscina.

Falar o que para a família? Ao chegar na casa deles já fui vendo coisas que me deixaram de antena em pé. O instinto me dizia que não adiantava falar com eles. Quis ir embora, ligaram para meus pais, para me acalmar, mas, pela distância, fui obrigada a ficar. Adorava viajar e conhecer lugares, mas o estresse que costumava passar esfriou minha vontade de fazer outros amigos.

No inicio da idade adulta fui atrás de equilibrar minha vida, ou do que achava que tinha que equilibrar. De início, dos 17 até os 28 anos, quis falar sobre o que via. Sem aconselhamento de pessoas que pudesse confiar, pois o que havia conhecido até então era o médium com o tipo de vida:“faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, achei que seria um bom começo ir simplesmente falando o que via, pois as consequências não poderiam ser piores do que já havia enfrentado. Pois é, foi pior, bem pior. Hoje, compreendendo parte do mecanismo por trás da cortina, não teria feito da forma como fiz. Naquela época, não me explicaram regras, leis, nada, então meti a cara e fui a campo. Não houve esclarecimento para as pessoas com quem falei o que via e a reação das pessoas foi a pior possível.

Mesmo tendo permissão, pois eu já via o sinal para isso, as pessoas não recebiam bem nada que tentava lhes passar, recados simples, nem mesmo sinceros avisos de perigo. Muitas vezes a mensagem ajudava a desviar o que estaria chegando, através do mecanismo de livre arbítrio da pessoa avisada, e, por não acontecer o que estava sendo avisado, era tido como mentira. Se fosse só pensar isso, estaria bom, mas me procuravam para “acusar” de nada ter acontecido. Teria ficado contente se uma desgraça que estivesse em meu caminho fosse avisada e terminasse não acontecendo, mas a maioria dos que foram avisados não ficou.

Isso fez com que amigos e conhecidos não só se afastassem, mas vibrassem rejeição a mim, a meus filhos, marido e a quem estivesse perto de mim. A reação da minha família, ao receber ofensas por que tinha dito algo que não aconteceu, era sempre pior que a da pessoa avisada, mas, enquanto meu coração disse tente falar, eu o fiz.

Dos 28 aos 34, já não falava espontaneamente. Passei a seguir uma regra: só falar quando questionada, e isso ajudou, mas não resolveu. Aquele que pergunta, na maioria das vezes, não sabe o que está perguntando e/ou não sabe se quer mesmo saber a resposta. A questão poderia ser sincera, mas a pessoa não estava em condições ou não queria escutar. Não interessa se o caso foi o primeiro ou o segundo, a reação é sempre em cima do médium, ou seja, você.

Dos 34 até agora, reservo-me o direito de não responder, mesmo que haja permissão, autorização ainda que uma obrigação, pois a raiva da pessoa cai sobre você, que, na realidade, é um telefone ou um fax! Pessoas não são burras de quebrar os telefones (pelo menos não o tempo todo), mas conseguem agredir os médiuns com gosto. Vi ocasiões onde usaram de violência física, e sei de perseguições no emprego, na rua e no núcleo familiar do médium.

A experiência vai modificando a pessoa, não o que ela é, mas a forma como age. Você não escreve como quando tinha cinco anos, nem fala como quando tinha 10 anos. Desde os 30 anos, vejo a minha mediunidade se intensificar e variar. Estou vendo mais, escutando melhor, recebendo mais mensagens e mais rápido. Não me pergunte se quis assim! Na realidade, tenho menos entusiasmo para com comunicações de qualquer tipo, e estou bem mais receosa e precavida que há 10 anos. Na hora de visitar amigos ou conhecidos, canso rápido. Mesmo sabendo me defender hoje, como não fazia antes, vejo coisas mesmo quando não as quero ver e que podem levar essas pessoas a quem gosto, a dor e sofrimento. Rezar é o mínimo que se pode fazer e, na maioria dos casos karmicos, o máximo também.

O cansaço que sinto pelo fato de ser médium é como o que temos com o som de um CD sujo, quando a faixa trava. A maior parte dos casos que observei é repetitivo: familiar que morreu e está enchendo o saco, obsessões, vícios das pessoas, falta de fé e a pior de todas a soberba. Então, em festas e reuniões, geralmente permaneço olhando tudo, desanimada, pensando que tenho de processar a carga que vou trazer comigo, repor o plasma e no trabalho que tudo isso dá. Quando vou a um lugar “sujo” onde não estou à trabalho, ainda trago carga comigo e levará um tempo para processar o que peguei de graça. Tudo isso é cansativo, já que tenho que fazer sozinha, sem nem a simpatia de quem estava com essa carga toda. Se fosse um trabalho conjunto, onde a pessoa carregada ajudasse no processo de limpeza, ficaria bem feliz, mas não é assim em 95% das vezes.

Com colegas de trabalho é mais fácil. Como o trabalho é tanto uma obrigação como um direito que Deus colocou na Terra, fica mais fácil organizar uma proteção ao seu redor, onde você possa entrar fazer o que tem que fazer e sair, sem grandes problemas. Há permissão e direito sobre essa proteção. Sobre pessoas desarranjadas, vivas ou não, no emprego ou em qualquer lugar, falaremos depois como se proteger.

Colegas e vizinhos são pessoas que geralmente não entenderão um mal estar súbito, uma dor que não cede, uma falta que não pode ser justificada, pois médico nenhum encontra a fonte do problema e, se lhe mandam para um psiquiatra, vai ficando delicado, principalmente se quiserem receitar antidepressivos e afins. Muitas tarefas não podem ser feitas por quem toma estes medicamentos. Isso se tomar esses antidepressivos e ansiolíticos resolvesse, o que não acontece quando o caso é exclusivamente decorrente da mediunidade. Na maioria das vezes, não dá para falar que você decidiu tirar o homem da sala, que deu um pouco de trabalho, mas que em uns dois dias, com a alimentação certa e descanso, seu plasma vai voltar ao nível normal. Hoje não vão internar e esquecer você, vão só esquecer.

O seu lado profissional pode e deve ficar no trabalho, mas não há como separar de você a sua mediunidade e esses fofinhos de corrente nos pés e lençóis rasgados não entendem, em nenhuma língua, que só podem ser atendidos de segunda a sexta das 8:00 as 17:00 com hora marcada, embora haja algo parecido e falaremos sobre isso mais tarde.

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