A família, por bem ou por mal, é obrigada, até certo ponto,
a lhe engolir. Amigos aguentam esquisitices de amigos, afinal ninguém é
perfeito e vizinhos obedecem aquela regra, querendo ou não: OS INCOMODADOS QUE
SE RETIREM, mesmo que a lei jurídica diga que não, que o direito à propriedade
é assegurado, que é proibido o som alto, após
as 22 horas. As leis sociais são mais sutis, mais práticas e a vizinhança se
encarrega de deixar claro que sua vida será pior que a deles, se houver uma
discordância.
Colegas e conhecidos não irão dar um desconto para você. Explico:
antigamente, até a época dos seus avós, você podia ser doente mental,
esquisito, excêntrico, estrangeiro ( que era como que excêntrico), ou apenas um
chato ( que na época era palavrão, então eles diziam sacripanta, que nos parece
horroroso), que estaria tudo bem, desde que você não demonstrasse o que era e
seguisse as regras de comer a mesa, de higiene, de etiqueta, etc. Atualmente existem
essas regras, mas muitas exceções. A bem da verdade, ninguém sabe o que é
normal, só dá para dizer o que é inaceitável, como maus tratos, violência,
assassinato. Mesmo havendo essa “permissão” tácita para sermos mais verdadeiros
quanto à nossa natureza, as pessoas afastam-se mais uma das outras ao menor
sinal de estranheza. A diferença é que as regras sociais de comportamento
faziam com que as esquisitices demorassem a ser notadas ou fossem bem
escondidas, mas hoje são vistas com mais rapidez e prontamente afastadas.
Quais são as dificuldades? Acho que você já tem uma boa idéia do inferno
que pode ser. Talvez já tenha sido excluído na escola, ou se afastou por conta
própria a bem geral da nação. Já deve ter desistido de explicar, pois “se nem
na família foi fácil, o que vão fazer comigo lá fora”? Posso contar o que
passei, o que vi outros passarem, o que fiz e vi outros fazerem a respeito.
Se dentro de casa conseguia sobreviver, fora dela dava mais
trabalho. Na escola não eram cinco familiares e cem “gentes mortas”, eram dois
mil estudantes e quinze mil “gentes mortas” - estou fazendo um calculo
otimista. Quando estudava em um colégio pequeno, levei um ano, mas me virei. Na
escola maior não consegui me adaptar a imensa quantidade de energias que havia.
Nem na faculdade pude melhorar essa questão, pois na minha época as drogas
ficavam fora. Elas estavam nas ruas e hoje estão nas escolas, nas faculdades e
estão em todo lugar. Na hora em que poderia enfrentar a situação com mais
conhecimento, as drogas e o sexo já faziam a
faculdade ter uma nuvem espessa como uma sopa grossa. Não que sexo seja ruim,
mas o sexo desenfreado, sem cuidado, sexo como afirmação pessoal, provoca uma
energia cinza que envolve as pessoas que o fazem. A nuvem envolvia o
departamento todo, então percebi que ali o sexo saudável era exceção à regra
entre os alunos. Quando drogas e tráfico seguem perto é triste. Pode haver o
uso das drogas em outro local, longe de onde foi comprada, mas há também o uso
junto de onde está sendo vendida e a faculdade hoje é assim.
Ainda sem conhecimento suficiente e na ausência de ajuda
fechei-me como uma concha. Desenvolvi um sistema de defesa do tipo couraça,
como é chamada, que me protegia do que vinha de fora, mas que não deixava
minhas energias circularem de forma natural, fazendo a vida escolar ser um peso
imenso. É uma pena ver que houve tanto estrago por algo que era fácil de ser
resolvido. Começando com uma boa conversa na família. Meu avô deu um conselho
que foi o máximo de conversação sobre o assunto: que não ficássemos eu e meus
irmãos na rua, a vista das pessoas, por muito tempo, pois “atraíamos muito olho
gordo”.
Na casa de amigos (milagrosamente os tive) enxergava o mesmo
que na minha, mas não faziam parte da rotina que estava acostumada e isso me causava
a perda de muito plasma tentando me defender deles. Tive muitos problemas de saúde
por causa do meu sistema imunológico que trabalhou por três esse tempo todo. Hoje
reconheço que o trabalho dos que me protegem não foi fácil. São heróis, estes
que vigiam as crianças com mediunidade. Agradeço a todos vocês por tudo que
fizeram e não vi, mas vivi para contar.
Uma vez fui à praia com amigos e seus pais. Vi o anjo da
morte na rua, mas como falar para eles que a morte rondava? O vizinho morreu
subitamente, e os filhos dele não puderam brincar conosco. O que teria ajudado?
Em outro caso, salvei uma menina de três anos do afogamento, quando eu contava
com apenas sete, na fazenda de seu avô. Lá vi uma pessoa que havia se afogado
naquela piscina um tempo antes, que me contaram ser o tio da menina. Ele estava
desesperado e foi quem me pediu para salvá-la, embora ele tentasse afogar
outros da família por ódio. Meu corpo era muito pequeno para conseguir tirar
quem quer que fosse de uma piscina cuja profundidade era maior do que meus pés
alcançavam. Com a ajuda das entidades consegui resgatá-la. Fiquei o resto da
semana processando o choque e a sensação ruim da morte rondando a piscina.
Falar o que para a família? Ao chegar na casa deles já fui
vendo coisas que me deixaram de antena em pé. O instinto me dizia que não
adiantava falar com eles. Quis ir embora, ligaram para meus pais, para me
acalmar, mas, pela distância, fui obrigada a ficar. Adorava viajar e conhecer
lugares, mas o estresse que costumava passar esfriou minha vontade de fazer
outros amigos.
No inicio da idade adulta fui atrás de equilibrar minha
vida, ou do que achava que tinha que equilibrar. De início, dos 17 até os 28
anos, quis falar sobre o que via. Sem aconselhamento de pessoas que pudesse
confiar, pois o que havia conhecido até então era o médium com o tipo de vida:“faça
o que eu digo, não faça o que eu faço”, achei que seria um bom começo ir simplesmente
falando o que via, pois as consequências não poderiam ser piores do que já
havia enfrentado. Pois é, foi pior, bem pior. Hoje, compreendendo parte do
mecanismo por trás da cortina, não teria feito da forma como fiz. Naquela época,
não me explicaram regras, leis, nada, então meti a cara e fui a campo. Não
houve esclarecimento para as pessoas com quem falei o que via e a reação das
pessoas foi a pior possível.
Mesmo tendo permissão, pois eu já via o sinal para isso, as
pessoas não recebiam bem nada que tentava lhes passar, recados simples, nem
mesmo sinceros avisos de perigo. Muitas vezes a mensagem ajudava a desviar o
que estaria chegando, através do mecanismo de livre arbítrio da pessoa avisada,
e, por não acontecer o que estava sendo avisado, era tido como mentira. Se
fosse só pensar isso, estaria bom, mas me procuravam para “acusar” de nada ter
acontecido. Teria ficado contente se uma desgraça que estivesse em meu caminho
fosse avisada e terminasse não acontecendo, mas a maioria dos que foram
avisados não ficou.
Isso fez com que amigos e conhecidos não só se afastassem,
mas vibrassem rejeição a mim, a meus filhos, marido e a quem estivesse perto de
mim. A reação da minha família, ao receber ofensas por que tinha dito algo que
não aconteceu, era sempre pior que a da pessoa avisada, mas, enquanto meu
coração disse tente falar, eu o fiz.
Dos 28 aos 34, já não falava espontaneamente. Passei a
seguir uma regra: só falar quando questionada, e isso ajudou, mas não resolveu.
Aquele que pergunta, na maioria das vezes, não sabe o que está perguntando e/ou
não sabe se quer mesmo saber a resposta. A questão poderia ser sincera, mas a
pessoa não estava em condições ou não queria escutar. Não interessa se o caso foi
o primeiro ou o segundo, a reação é sempre em cima do médium, ou seja, você.
Dos 34 até agora, reservo-me o direito de não responder,
mesmo que haja permissão, autorização ainda que uma obrigação, pois a raiva da
pessoa cai sobre você, que, na realidade, é um telefone ou um fax! Pessoas não
são burras de quebrar os telefones (pelo menos não o tempo todo), mas conseguem
agredir os médiuns com gosto. Vi ocasiões onde usaram de violência física, e
sei de perseguições no emprego, na rua e no núcleo familiar do médium.
A experiência vai modificando a pessoa, não o que ela é, mas
a forma como age. Você não escreve como quando tinha cinco anos, nem fala como
quando tinha 10 anos. Desde os 30 anos, vejo a minha mediunidade se
intensificar e variar. Estou vendo mais, escutando melhor, recebendo mais
mensagens e mais rápido. Não me pergunte se quis assim! Na realidade, tenho
menos entusiasmo para com comunicações de qualquer tipo, e estou bem mais
receosa e precavida que há 10 anos. Na hora de visitar amigos ou conhecidos,
canso rápido. Mesmo sabendo me defender hoje, como não fazia antes, vejo coisas
mesmo quando não as quero ver e que podem levar essas pessoas a quem gosto, a
dor e sofrimento. Rezar é o mínimo que se pode fazer e, na maioria dos casos
karmicos, o máximo também.
O cansaço que sinto pelo fato de ser médium é como o que
temos com o som de um CD sujo, quando a faixa trava. A maior parte dos casos
que observei é repetitivo: familiar que morreu e está enchendo o saco,
obsessões, vícios das pessoas, falta de fé e a pior de todas a soberba. Então,
em festas e reuniões, geralmente permaneço olhando tudo, desanimada, pensando
que tenho de processar a carga que vou trazer comigo, repor o plasma e no
trabalho que tudo isso dá. Quando vou a um lugar “sujo” onde não estou à
trabalho, ainda trago carga comigo e levará um tempo para processar o que
peguei de graça. Tudo isso é cansativo, já que tenho que fazer sozinha, sem nem
a simpatia de quem estava com essa carga toda. Se fosse um trabalho conjunto,
onde a pessoa carregada ajudasse no processo de limpeza, ficaria bem feliz, mas
não é assim em 95% das vezes.
Com colegas de trabalho é mais fácil. Como o trabalho é
tanto uma obrigação como um direito que Deus colocou na Terra, fica mais fácil
organizar uma proteção ao seu redor, onde você possa entrar fazer o que tem que
fazer e sair, sem grandes problemas. Há permissão e direito sobre essa
proteção. Sobre pessoas desarranjadas, vivas ou não, no emprego ou em qualquer
lugar, falaremos depois como se proteger.
Colegas e vizinhos são pessoas que geralmente não entenderão
um mal estar súbito, uma dor que não cede, uma falta que não pode ser
justificada, pois médico nenhum encontra a fonte do problema e, se lhe mandam
para um psiquiatra, vai ficando delicado, principalmente se quiserem receitar
antidepressivos e afins. Muitas tarefas não podem ser feitas por quem toma
estes medicamentos. Isso se tomar esses antidepressivos e ansiolíticos
resolvesse, o que não acontece quando o caso é exclusivamente decorrente da
mediunidade. Na maioria das vezes, não dá para falar que você decidiu tirar o
homem da sala, que deu um pouco de trabalho, mas que em uns dois dias, com a
alimentação certa e descanso, seu plasma vai voltar ao nível normal. Hoje não
vão internar e esquecer você, vão só esquecer.
O seu lado profissional pode e deve ficar no trabalho, mas não
há como separar de você a sua mediunidade e esses fofinhos de corrente nos pés
e lençóis rasgados não entendem, em nenhuma língua, que só podem ser atendidos
de segunda a sexta das 8:00 as 17:00 com hora marcada, embora haja algo
parecido e falaremos sobre isso mais tarde.
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